sexta-feira, 8 de abril de 2011

Desejo fúnebre

Uma vez ouvi uma história a que dou crédito: Leôncio, filho de Agláion, ao regressar do Pireu, pelo lado de fora da muralha norte, percebendo que havia cadáveres que jaziam junto do carrasco, teve um grande desejo de os ver, ao mesmo tempo que isso lhe era insuportável e se desviava; durante algum tempo, lutou consigo mesmo e velou o rosto; por fim, vencido pelo desejo, abriu muito os olhos e correu em direção aos cadáveres, exclamando:


“Aqui tendes, gênios do mal, saciai-vos deste belo espetáculo!”


Esse trecho de A República (Livro IV - Platão) não me sai da cabeça toda vez que o Brasil para pra acompanhar uma tragédia como a de hoje em Realengo, no Rio de Janeiro.

Um comentário:

Oicled disse...

Há uma relação de discórdia entre as duas partes, por isso o elemento irascível é aquele que vai garantir a superação desta situação. Platão não expõe diretamente a natureza do elemento irascível, mas toma como exemplo o conflito presente na alma de Leôncio, filho de Aglálio, que, ao ver cadáveres, é acometido pelo desejo de olhá-los, ao mesmo instante, em que se torna insuportável a idéia de observar tal espetáculo. Eis o conflito interno entre as três partes da alma. Uma, anseia saciar o desejo de ver o espetáculo mórbido. A outra, racional, rejeita tal desejo, e exige que Leôncio vá embora e não se perturbe com tal cena. E, a terceira não consegue decidir o que é melhor. Mas, qual é a mais forte para determinar o que Leôncio deve fazer?

Por não se conter diante do desejo irracional, e percebendo a futilidade do desejo, se irrita com tal situação, pois se dá conta que sua irracionalidade foi mais forte que a racionalidade.