segunda-feira, 30 de novembro de 2009

FHC entrevistado por Augusto Nunes

Entrevista completa que Auguto Nunes, da revista Veja, fez com FHC. Para arquivar e spamear:

Parte 1
http://www.youtube.com/watch?v=K_PhYIs5FLc&feature=player_embedded

Parte 2
http://www.youtube.com/watch?v=H62RJIU-WYI&feature=player_embedded

Parte 3
http://www.youtube.com/watch?v=wOOle6JDwgg&feature=player_embedded

Parte 4
http://www.youtube.com/watch?v=fl1RQ-BEmZw&feature=player_embedded

Parte 5
http://www.youtube.com/watch?v=MJVwZmcWrQw&feature=player_embedded

Parte 6
http://www.youtube.com/watch?v=8-wpoERIkiM&feature=player_embedded

Parte 7
http://www.youtube.com/watch?v=3ygrVpnfIXk&feature=player_embedded

Parte 8
http://www.youtube.com/watch?v=Yte3dizfYmU&feature=player_embedded

Parte 9
http://www.youtube.com/watch?v=WCXI0dZwp6I&feature=player_embedded

Parte 10
http://www.youtube.com/watch?v=GQWb5foJVME&feature=player_embedded

Parte 11
http://www.youtube.com/watch?v=1tPZJ7PSPhY&feature=player_embedded

Parte 12
http://www.youtube.com/watch?v=my0SEOGBXm0&feature=player_embedded

Parte 13
http://www.youtube.com/watch?v=ikVtaE30kqA&feature=player_embedded

Parte 14
http://www.youtube.com/watch?v=W6xg3FW7fxM&feature=player_embedded

Parte 15
http://www.youtube.com/watch?v=LPEay--Zm50&feature=player_embedded

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Pequeno por fora, grande por dentro

Em formato pocket com capa-dura, chega nesta semana às livrarias Máximas de um país mínimo, Editora Rercord, um apanhado de frases-sínteses de Reinaldo Azevedo.
Quem já é leitor do blog vai aproveitar para mergulhar mais uma vez nas frases, quase aforismos, do blogueiro político mais influente no Brasil.
Quem ainda não é leitor do blog terá um ótimo aperitivo para abrir o apetite pelos textos densos do autor, o que transforma este livro no presente natalino ideal para aquele seu amigo, vizinho, irmão, cunhado etc que até gosta de falar de política, tem boa formação intelectual, mas que ainda não entendeu algumas coisas que você se exaaaaaure de tentar explicar… :D

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Obrigada pela preferência

Mas este blog não precisa de patrulhamento.

Apagão mental

Deu em O Globo
De Miriam Leitão:

Há muitas lições a tirar do apagão. A mais urgente é que energia é um tema que não pode ser entregue à partilha política. O sistema brasileiro foi montado para prevenir um evento como este, ou então, ser capaz de remediar em minutos.

Eram 5h15m de ontem quando chegou à Itaipu a informação do ONS de que podia gerar 100% da energia. O problema durara sete horas e dois minutos.

Vários técnicos e dirigentes de empresas com quem a equipe desta coluna conversou disseram a mesma coisa: o espantoso é demorar tanto para explicar o que houve.

A falta de diagnóstico rápido revela pouca coordenação e descontrole. O que assusta. A explicação oficial — e insuficiente — só chegou às 7h da noite.

Nas crises, fica ainda mais patético ter um ministro tão desligado do tema.

Edison Lobão disse inicialmente que era pane em Itaipu. Não era; foi na linha de transmissão. Disse que em 2001 o sistema não era interligado. Já era, há décadas; depois de 2001 foi reforçado. Disse que o apagão foi causado por problemas meteorológicos. O próprio governo depois negou. No início da noite, Lobão voltou a culpar o mau tempo. Isso é que dá escolher um ministro pela sua interligação com o sistema Sarney.

Ficou claro que há uma lista de tarefas a fazer: o país precisa aperfeiçoar o sistema de isolar o problema para evitar o efeito dominó. O mecanismo existe e deveria ter funcionado, explica Mário Veiga, presidente da PSR. Não funcionou e espalhou o sinistro por 18 estados.

Seja qual for a explicação que perdure, o fato é que no futuro haverá mais eventos climáticos extremos.

Secas como a de 2001 podem ocorrer com mais frequência, seguidas de grandes tempestades. O país depende muito de água nos reservatórios, e tem um sistema interligado. Portanto, está duplamente vulnerável. Precisa de um planejamento energético que leve em conta as mudanças climáticas e que aumente a segurança.

As decisões dos últimos anos tornam o país mais frágil, explica Adriano Pires, porque optou-se por manter o modelo de grandes hidrelétricas, como as do Rio Madeira, que exigirão linhões de transmissão e estarão interligadas ao sistema.

Mário Veiga lembrou que as hidrelétricas do Rio Madeira não terão reservatórios.

Interligar o sistema é um avanço, na opinião de Veiga. O necessário é ter um sistema eficiente que crie o "ilhamento" de eventuais problemas, disse Luiz Pinguelli Rosa. Veiga acha que o evento mostrou duas fragilidades:

— O sistema não conseguiu prevenir o problema e demorou muito a remediar.

Em 2001, houve racionamento. Falta de energia. Agora, houve apagão. São eventos totalmente diferentes.

Um foi crise de abastecimento; o outro, colapso de algumas horas no sistema operacional. Atualmente, há sobra de energia por dois motivos: muita água nos reservatórios por causa das chuvas abundantes; e a crise econômica que reduziu a demanda.

— A demanda estava crescendo a 5% ao ano. Em 2009, ficará estável. A crise anulou um ano de crescimento da demanda — explicou Mário Veiga. Leia mais em O Globo

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Se fosse o contrário

Se o PSDB fosse governo e o PT oposição neste episódio do apagão, estaríamos ouvindo/lendo agora:

Tá vendo? Enquanto o presidente está lá no ar condicionado, as pessoas cuja vida depende de aparelhos estão morrendo!

Militantes petistas

Ótima participação do Danilo Gentili do CQC de segunda-feira:

Apagão de liderança em Brasília

O assunto da noite, que se arrastou pela madrugada, foi o apagão elétrico nacional, ainda sem causa identificada.

Pesa-me lembrar que o pior apagão no Brasil não é o de energia elétrica. O pior apagão é o apagão ético. O apagão moral. E, nestes momentos é preciso constatar, o apagão de lideranças em Brasília.

Um presidente com um mínimo senso de responsabilidade teria dado entrevista ao vivo pelo menos ao Jornal da Globo. Teria chamado a responsabilidade para si, dando pessoalmente satisfações aos brasileiros, ainda que não tivesse respostas técnicas para dar.

Mas e quem esperaria isso de Lula? Quem esperaria isso do presidente que em 7 anos de governo não desceu do palanque um único dia? Tudo o que Lula sabe fazer é campanha. Não tem tempo para governar. Ademais, faz parte do trabalho do Ministério da Propaganda e Teflonação de Lula afastá-lo de toda e qualquer notícia ruim. Os subalternos é que são obrigados a receber os tomates do público, como se não estivessem nos cargos que ocupam por uma escolha política do presidente.

Escrevo isso porque no início da madrugada, na internet, vi mostras daquilo que deveríamos esperar de uma autoridade política. Antenadíssimo pelo Twitter, o governador (carinhosamente "govs" - by Marcelo Tas) José Serra postou o seguinte:

Sobre o apagão em grande parte do país: esta foi a primeira vez na história que todas as máquinas de Itaipu pararam.

Aqui em São Paulo, acionamos um esquema de emergência de todo o sistema de energia do estado, a partir do grupo Cesp/Henri Borden.

As usinas de Jupiá e Ilha Solteira e as 8 geradoras do Tietê trabalham em conjunto com a Cia. de Transmissão de Energia Elétrica Paulista.

A informação é de que a energia começa a voltar em algumas regiões do estado - ABC e Baixada Santista - e em muitos bairros da Capital.

Tb estou usando o twitter p/ monitorar a situação e manter contato. Segundo a PM, não houve distúrbios graves e o 190 funcionou normalmente.

Viva! RT @andregraziano Viva o Twitter! O @joseserra_ fala com a Jovem Pan agora. Respondeu ao nosso chamado. Jovem Pan AM e FM em cadeia.

Para quem não ouviu ou não é de São Paulo, entrevista à Rádio Jovem Pan: http://migre.me/bfio

Serra sabe que o apagão não é responsabilidade sua (o problema foi nacional, né?). E mesmo assim corre deliberar e dar satisfação às pessoas, porque considera que a população deve ser preservada, não importando se a causa do apagão é da competência de A, B ou C.

Não bastasse o exemplo de espírito público, Serra, dando provas de maleabilidade e modernidade, fez tudo isso através da mais atual das ferramentas da internet. Um jornalista da Jovem PAN enviou um twitt público destinado ao governador pedindo contato para uma entrevista ao vivo. Minutos depois Serra estava no ar, conforme se pode ouvir no link acima.

Agindo assim, o governador de São Paulo torna-se referência nos meios virtuais.

Apenas uma coisa me chateou enquanto eu acompanhava os comentários para o govs. Algumas pessoas, aproveitando-se do comportamento transparente e honesto do governador, escreveram textos incutindo-lhe responsabilidade pelo o apagão, fazendo-lhe cobranças absurdas. Não sei se fazem isso por ignorância política ou má-fé. Se for má-fé, é má-fé partidária. Não tem outra explicação.

Leitura obrigatória

Dilma é inocente

SEG, 09/11/09
POR GMFIUZA |

Ela não tem culpa. Está sendo só ela mesma. Passeia de mãos dadas com o padrinho, reclama da imprensa burguesa, fuxica informações do governo anterior. Isto é Dilma Rousseff.

O problema são os outros. A opinião pública brasileira é comprável com meio slogan. Caetano Veloso, querendo criticá-la, sem querer abençoou a fraude. O mal de Dilma, segundo o compositor, é ser apenas uma gestora, sem experiência política.

Haja paciência. A única verdade incontestável no currículo de Dilma Rousseff – fora as que ela mesma cria – é ser uma militante. Venerável Caetano: política é a única coisa que a ministra-chefe da Casa Civil fez até hoje.

Quem lhe disse que Dilma é gestora? Lula? Os jornais? Procure saber você mesmo. Descubra, se puder, uma única experiência de gestão bem-sucedida da suposta dama de ferro.

A auto-intitulada companheira de armas de José Dirceu fez na vida o que dez entre dez políticos da DisneyLula fazem: buscar o poder, grudar nele, abrir espaços para a companheirada na sombra do Estado brasileiro.

Avalie a gestão mais conhecida de Dilma Rousseff, à frente do Ministério das Minas e Energia (na Casa Civil ela só conspira, faz campanha e brinca de mãe do PAC, portanto não conta). Caetano, você ouviu falar que as concessionárias de energia elétrica estão devendo bilhões de reais ao consumidor, por cobranças excessivas na conta de luz?

Pois bem: isso é uma das obras-primas da famosa gestora Dilma Rousseff.

Copiando o populismo tarifário argentino, a candidata de Lula baixou na marra o preço da energia – como sempre, em nome do povo. É o crime perfeito: o povo fica feliz agora, e se dá mal mais tarde, com a falência das empresas do setor, que acabarão sendo socorridas pelo Tesouro – isto é, por todos nós.

Desta vez, as empresas deram um jeitinho, dentro do fantástico modelo criado pela gestora Dilma, de já ir abatendo o prejuízo no caminho. O contribuinte vai se ferrar lá na frente, e o consumidor já vai se ferrando agora. Um lembrete: ambos são a mesma pessoa – você –, vítima da grande gestora.

Alguém tem notícia de que a cobrança exorbitante e ilegal será devolvida às vítimas? Alguém ouviu alguma garantia nesse sentido da ministra mais poderosa do governo?

Ninguém tem, ninguém ouviu. Por uma razão simples: Dilma Rousseff não é uma autoridade de fato, não está administrando (gerindo!) os problemas do Brasil. Está cuidando do seu projeto eleitoral. Fazendo política – que é o que se dispõe a fazer.

Nada disso aparece na pasmaceira que é o debate político brasileiro. Todos os gatos por aqui têm status de lebre. Maluf inventa o “gestor” Celso Pitta, e a manada só grita depois do cofre arrombado. E lá vamos nós de novo, Caetano.

O verdadeiro analfabeto brasileiro é o eleitor.


http://colunas.epoca.globo.com/guilhermefiuza/2009/11/09/dilma-e-inocente/

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Revista Veja

Estou cansada de escutar críticas à Veja. Dizem que é uma revista parcial, que não é isenta.

Em primeiro lugar, precisamos acabar com o mito da isenção. Isso não ec-xiste. Para emitir uma opinião, qualquer pessoa (do jornalista das grandes empresas de comunicação ao vizinho que comenta o futebol, passando pelos sites da internet) faz julgamentos com base nos filtros culturais que recebeu, elaborou e escolheu ao longo da vida. Então é claro que não existe isenção absoluta em nenhum veículo de comunicação. Mas isso não impede que se possa ser criterioso e escolher os que são menos tendenciosos.

Ccomo saber isso? Observando os patrocinadores.

No caso da revista Veja, os assinantes, compradores em banca e os anunciantes. Quanto mais assinantes e vendas em banca tem uma revista, mais independente ela se torna dos anunciantes, que são os que podem tornar as matérias menos isentas, influenciando a escolha dos assuntos e a abordagem sobre eles. Veja é disparado a revista com o maior número de assinantes e vendas em banca no Brasil. Não tenho os números aqui, mas é coisa de mais de cinco vezes o segundo lugar.

De qualquer forma, só o número de assinantes e vendas em banca não sustenta veículo impresso algum. Então precisamos avaliar os anunciantes. Quanto mais plural é o leque dos anunciantes, com setores diferentes da indústria, do comércio e da prestação de serviços, mais independentes serão as matérias, mais liberdade tem a editoria para contratar jornalistas com visões diversificadas e maior é o conjunto de assuntos para pesquisarem.

Por isso, para quem busca isenção, a pior escolha possível são os veículos que recebem anúncios de poucos setores ou tem poucos anunciantes. Pior: de um único anunciante. E tanto pior se ele é o estado. Aí é que com certeza não haverá isenção. Qual é o veículo de comunicação que vai ficar escarafunchando e dificultando a vida de seu principal (ou único) anunciante? E é justamente aí, nas instituições que administram o dinheiro público, onde ocorrem as maiores maracutaias e onde mais há necessidade de investigação jornalística.

É por isso que, de todos os veículos de comunicação no Brasil, o que eu acredito que seja mais isento é a Veja. Tem o maior número de assinantes, a maior venda em banca e o maior leque de anunciantes (inclusive estatais) – anunciantes internacionais, nacionais e locais, tanto da indústria, do comércio como da prestação de serviços. Isso significa maior independência, pois a revista não precisa temer perder um anunciante porque falou mal de um setor ou fez alguma denúncia que poderia prejudicar alguma empresa. Bem diferente de outros veículos que alguns acreditam isentos, como a Carta Capital ou a Caros Amigos.

O exemplo máximo é o jornal Gramma. Aliás, os cubanos têm dado um excelente uso para ele, já que falta papel higiênico em Cuba. E não, não estou fazendo blague, ironia ou sendo mal-educada. É a realidade.

A estratégia da indecisão

da revista Época:

Enquanto a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, se esforça para exibir ao país sua candidatura ao Planalto em 2010, o governador de São Paulo, José Serra, faz o contrário. Na semana passada, numa inauguração no Hospital do Servidor Público Estadual, em São Paulo, Serra falou pouco com dirigentes da instituição, poupou sorrisos e deu apenas um abraço numa possível eleitora. Passou o evento falando ao celular e lendo documentos. Na saída, nada de cumprimentos.

Líder nas pesquisas de intenção de voto, Serra afirma que o PSDB só deverá escolher seu candidato à Presidência da República em março do ano que vem. O governador de Minas, Aécio Neves, que também quer a vaga de candidato, emprega a tática oposta – e cobra uma definição. Em tom impaciente, Aécio declarou na semana passada que esperará até o fim do ano – caso contrário, vai concorrer ao Senado. Serra aguardou dois dias para responder. Numa entrevista, ele perguntou à reporter: “Você sabe se o Ciro Gomes (PSB) vai ser candidato? A Dilma já se declarou candidata? Então, por que essa ansiedade?”. E disse: “Minha impaciência é com fila de elevador, banheiro de avião. Tenho nervos de aço na política”.

Não é só uma questão de temperamento, contudo. ÉPOCA teve acesso a um documento de circulação exclusiva entre Serra e seus auxiliares, em que se podem ler argumentos claros e lógicos a favor do silêncio. “A quem lidera as pesquisas, interessa manter mais ou menos congelada a situação”, diz o texto. “Líder de pesquisa que entra em campo cedo demais passa a receber com muita antecedência toda a carga de campanha negativa e de desgaste.” Com ironia, o documento pergunta: “Causa menos dano se expor e apanhar por oito meses do que por quatro?”. Em outro trecho, o documento diz que, diante da campanha de Dilma, Serra está “em situação dramaticamente assimétrica: tem menos exposição na mídia nacional, menos mobilidade, menos máquina, menos recursos, menos espaço para se defender e contra-atacar do que Lula/Dilma”.

Artigo de FHC

Deus e o mundo já leram, mas tenho que arquivar:

Para onde vamos?,
por Fernando Henrique Cardoso

A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio “talvez” porque alguns estão de tal modo inebriados com “o maior espetáculo da terra”, de riqueza fácil que beneficia a poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?

Só que cada pequena transgressão, cada desvio, vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso Príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade, que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos.

É possível escolher ao acaso os exemplos de “pequenos assassinatos”. Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira “nacionalista”, pois se o sistema atual, de concessões, fosse “entreguista” deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental em uma companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem qualquer pudor, passear pelo Brasil às custas do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?

Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do “autoritarismo popular” vai minando o espírito da democracia constitucional. Essa supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os “projetos de impacto” (alguns dos quais viraram “esqueletos”, quer dizer obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Em pauta, temos a transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no orçamento e minguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo TCU. Não importa: no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: “Minha casa, minha vida”; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.

Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo “Brasil potência”. Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU – contra a letra expressa da Constituição – vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que tivesse se esquecido de acrescentar “l’État c’est moi”. Mas não esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender “nosso pré-sal”. Está bem, tudo muito lógico.

Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no “dedaço” que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições, sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são “estrelas novas”. Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.

Ora dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso, os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas – mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou “privatizadas”. Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde.

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2703129.xml&template=3898.dwt&edition=13422&section=1012