sexta-feira, 26 de junho de 2009

Vascaínos matam flamenguistas, e o Brasil aplaude

Os vascaínos chegaram em motos, vestidos de preto, a cor predileta dos fascistas. Armados de porretes e pistolas, seus alvos eram os flamenguistas, muitos deles mulheres, que pediam liberdade, abertura e eleições de verdade.

Líderes rubro-negros foram detidos. Seus simpatizantes, mortos e espancados nas ruas. Os vascaínos calaram a imprensa, prendendo jornalistas locais e expulsando os estrangeiros, para que seus crimes não fossem registrados.

Após intensa e sangrenta repressão, os flamenguistas deixaram as ruas para os vascaínos seguirem oprimindo a população em geral: tricolores, corintianos, palmeirenses, gremistas, cruzeirenses. Só restou aos flamenguistas gritarem, poética e desafiadoramente, "Zico é o maior!" do telhado de suas casas.

Uso do lulismo ("uma coisa entre flamenguistas e vascaínos" foi como o nosso presidente avaliou inicialmente a gravíssima crise no Irã) para descrever os trágicos acontecimentos naquele país. Quem sabe assim fique mais clara ao petista a vergonhosa posição brasileira na crise, de apoio cego a uma teocracia autoritária e repressora. Seria como se estrangeiros apoiassem cegamente o governo Médici enquanto os companheiros eram mortos e torturados nos porões da ditadura brasileira. É o que Lula faz em 2009.

Esse apoio, como quase toda a nossa política externa, é mal explicado. O chanceler brasileiro, Celso Amorim, questionado no Roda Viva da TV Cultura, gaguejou, ziguezagueou e não conseguiu justificá-lo. O diplomata acabou sugerindo a existência de uma suposta agenda secreta iraniano-brasileira, interessante o suficiente para fazer com que o governo brasileiro tape o nariz, os olhos e a boca ao lidar com Teerã.

O Brasil tem hoje voz crescente e relevante no cenário global, graças à nossa capacidade econômica e estabilidade política, que nos projetam a um futuro maior.

Esse novo peso brasileiro precisa ser mais compreendido. Talvez estejamos vendendo nosso novo prestígio barato demais, a preço antigo. Fazendo políticas de governo no lugar de políticas de Estado. Priorizando o pequeno diante do grande.

O Brasil nunca foi sincero defensor dos direitos humanos em suas relações internacionais. Prevaleceu sempre a defesa da soberania interna dos países, mesmo que para reprimir seus cidadãos.

Ficamos assim, por exemplo, com a mesma posição de Rússia e China na questão iraniana, um alinhamento quase automático com os não-alinhados com a defesa dos direitos humanos e da democracia.

Não existe diplomacia moral, e os Estados só tem interesses. Mas isso não impede o Brasil de exercer pressão maior sobre regimes autoritários e sangrentos. Muito menos nos obriga a defendê-los ou prestigiá-los, como no caso iraniano, mas também no da Coreia do Norte, no do Sudão.

É fácil ganhar entradas em regimes párias apoiando-os quando todos os criticam. Mas se essas entradas não trouxerem resultados tangíveis ao Brasil, que justifique apoio a ditaduras que oprimem, torturam e matam seus cidadãos, elas levam apenas a mesquinhas trocas de favores, secretos ou não.

Pensata por:
Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/sergiomalbergier/ult10011u586305.shtml

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