sábado, 20 de junho de 2009

O quase

Em texto abaixo, escrevi ao Tas que "quase sempre quando discordo, silencio".
Explico agora o que faz aquele "quase" ali.

A democracia aceita todas as correntes de opinião. Menos uma: a que quer destruir a democracia.

Normalmente quem quer destruir a democracia utiliza-se de ações coletivas, também chamadas de patrulhamento. Funciona assim: "se você não concorda comigo, vou tentar te convencer. Se não adiantar, então não gosto de você e vou fazer campanha contra o seu pensamento, para que as pessoas também não gostem e seu pensamento não 'contamine' mais ninguém".

Notem que isso é diferente de "se você não concorda comigo, vou tentar te convencer. Se não adiantar, então não gosto de você, não vou mais te dar pelota e vou cuidar da minha vida".

O segundo discurso admite a existência do outro que pensa diferente, embora não queira interação com ele – afinal, é um direito, não é?

Já o primeiro discurso, não. O primeiro quer exterminar a existência do pensamento discordante. Assim, nesta democracia dos homens do primeiro discurso, nem todos os pensamentos são aceitos: só os concordantes. Os demais precisam ser destruídos. Seria ainda democracia?

Aí é que está a função do "quase" da minha frase. Eu não silencio diante das patrulhas. Eu não silencio diante daquilo que racha a democracia para depois destruí-la. As pessoas podem pensar e fazer o que quiserem (dentro dos limites da lei, é claro: pedofilia, por exemplo, não pode, porque nossos representantes decidiram que isso não é humano nem civilizado). Mas não vou silenciar diante de instrumentos que me impeçam de pensar e fazer o que eu quero.

Não aceitem silenciosamente as patrulhas. Façam patrulhas contra as patrulhas, se for necessário. Denunciem. Esperneiem. Recusem o pensamento que impõe o coletivo sobre o individual.

Um comentário:

Bugas disse...

Daniela,

Você disse tudo e admiro sua postura quanto ao respeito sobre opiniões de cada indivíduo. Realmente temos que ser tolerantes ao posicionamento de cada um, se não concordar, vale uma discussão saudável para entender os motivos, e só.

Sou a favor de: o direito de um serumano, acaba quando o do outro começa.

Bugas