terça-feira, 12 de maio de 2009

De política e carne vemelha

Quando repetem aquela frase que já virou clichê que diz que a política está na roupa que vestimos, no calçado que calçamos e na comida que comemos, quase sempre me lembro deste caso da carne vermelha.

Antes de continuar, dois avisos:
- este texto não foi escrito para convencer ninguém a comer ou deixar de comer qualquer coisa. O que ingerimos é uma escolha individual e ninguém tem o direito de interferir nisso.
- não leia este texto imediatamente antes ou depois de ter feito uma refeição.

Amigos já sabem que eu não como carne vermelha há pelo menos 8 anos (e só permaneço ingerindo frango e peixe para não me tornar uma pessoa insociável). Há muitos motivos para isso, mas eu diria que o principal é de ordem espiritual: acredito que a alimentação carnívora é incompatível com a atividade intelectualizada do homem moderno, não obstante a existência dos nossos caninos. Ademais, filosoficamente, não consigo entender como "comida" o corpo morto de animais, ainda que fresco. Um dos motivos mais fortes, entretanto, foi o que, mais um vez, me deixou possessa há algumas horas atrás.

Como entendo que estas são questões de ordem individual, compro e preparo carne bovina para meu marido. E foi o que fiz hoje, gastando duas horas de forno para assar uma costela.
Como tem acontecido com freqüênia pelo menos desde 2001, sentimos um odor repugnante durante a preparação da carne, quando é submetida a temperaturas mais altas. É como se o derretimento da gordura revelasse um cheiro semelhante ao da carne suína ou de fígado de boi. E o gosto também fica alterado.

Já nos debatemos atrás de melhores fornecedores, peregrinando por vários mercados e açougues da cidade, dos melhores aos piores. E, no entanto, continua nos sendo impossível prever quando a carne vai apresentar esta característica e quando não vai, já que ela é imperceptível na carne crua.

Conversando com açougueiros e pesquisando na internet, finalmente descobrimos a origem do cheiro que deixa a carne intragável aos paladares e olfatos mais sensíveis: a alimentação dos bois durante o período de confinamento.

Alguns produtores colocam cama de frango e/ou caroços de algodão de safras anteriores, cuja gordura já ficou rançosa, na ração dos animais em confinamento, para barateá-la. Para quem não sabe, cama de frango é o resultado da produção industrial de frango, e é composta por penas, restos de carcaças e fezes destes animais. A região onde vivemos quase não tem produção de algodão, e transportar os caroços para cá acarretaria num custo que não resultaria em barateamento. Mas o Paraná e Santa Catarina são grandes produtores de frangos.

Usar cama de frango na alimentação bovina foi proibido no Brasil desde 2004, conforme noticia o Estadão (leia, porque a notícia é importante):
http://www.estado.com.br/suplementos/agri/2007/05/30/agri-1.93.1.20070530.17.1.xml

Mesmo assim continuamos sentindo este cheiro intragável na preparação da carne, pelo menos 1 em cada 3 vezes. Duas horas de serviço e gás e pelo menos 30 reais jogados pela janela, sem falar na gasolina para ir buscar a carne de um fornecedor melhor. Tudo isso para não me deixar esquecer a desgraça que é viver num país que é uma farsa jurídica e que só não desmorona porque quase todos são mesmo muito distraídos ou alienados.

PS
Leia também esta troca de mensagens entre produtores de gado no yahoogroups:
http://www.mail-archive.com/bufalos@yahoogrupos.com.br/msg01028.html

3 comentários:

Dick disse...

Como eu sempre digo, você é mesmo uma beagle que fareja tudo, e o faz rapidamente. Eu nunca tinha lido nada a respeito, mas o que você diz faz sentido, sim. Eu, inclusive, gostaria de conseguir abandonar a carne vermelha, mas não consigo, da mesma forma que não consigo deixar de gostar de café, chocolate, cheddar, pão de queijo, água mineral com gás (por sugestão tua, inclusive), ovo frito, e outras coisas gostosas que nem sempre fazem tão bem à saúde.

Pelo jeito, você ficou mesmo furiosa, pois o seguinte trecho até parece com os meus desabafos de tempos atrás: "Tudo isso para não me deixar esquecer a desgraça que é viver num país que é uma farsa jurídica e que só não desmorona porque quase todos são mesmo muito distraídos ou alienados."

Pois é. O Brasil nunca chegou a ser um país realmente sério. Mas, pra não ter problemas cardíacos, nem digestivos, tenho andado bem calminho, calminho... Lembrando dos tempos do primeiro mandato do FHC e esperando que o Serra nos faça esquecer um pouco do Lula.

Alesya Karas disse...

Trabalhei como mesária nas últimas eleições presidenciais. Senti esse mesmo cheiro na maioria dos votos digitados na urna eletrônica.

Fernando disse...

Daniela,

Você deveria escrever mais. Vale a pena ler você!

Abraços