quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Letrinhas saindo pelos ouvidos

Republico um texto de 20/08/2008 sobre a questão da mordaça política na internet, imposta pelo TSE:

***


Estes últimos dias foram intensos. Tenho tanta coisa a dizer que às vezes parece que estão saindo letrinhas pelos orifícios da minha cabeça.

Eu entendo que muitos estejam fazendo pouco caso do que está acontecendo.

Uma parte destas pessoas se esquece de que este não é um problema que deve preocupar apenas usuários do Orkut. Trata-se de um precedente que coíbe a manifestação política, a publicidade espontânea do voto de cada um e o debate em busca de outros. Não importa o ambiente, se é aquele que a gente usa ou não. Importa combater o que está errado mesmo que, num primeiro momento, isso não esteja nos atingindo.

Mas a maior parte talvez não esteja se importando muito porque julga que o Orkut é uma coisa para adolescentes e crianças. Enganam-se. O Orkut é uma ferramenta – nada mais que uma ferramenta – como outra qualquer, como um lápis, como um carro.

Um lápis pode ser usado por uma criança para fazer desenhos, mas também pode servir para um grande homem escrever sua obra-prima e ganhar o Prêmio Nobel. E o mesmo lápis pode servir para o chefe de uma quadrilha enviar um recado aos seus comparsas. Igualmente, um carro pode servir tanto para dar um passeio, como para levar alguém ao hospital ou para assaltar um banco. Tudo depende do uso que se dá.

Em especial, o Orkut é uma ferramenta que propicia 1) o reencontro de pessoas que não se viam há muito tempo; 2) a aproximação de pessoas que têm pensamentos ou interesses afins; e 3) o debate franco sobre qualquer assunto, com todas as vantagens e desvantagens que isso tem.

Por isso, creio que é hora de fazer alarido público e junto à imprensa, sim. O fato de interferirem da forma como estão interferindo no Orkut é coisa grave, e deve despertar a atenção dos defensores da democracia e da liberdade de expressão. Essa determinação do TSE simplesmente nos deixou sem ação na internet, como cidadãos. É um descalabro que a justiça impeça que os cidadãos declarem publicamente seus votos (como muitos faziam no seu avatar) em um ambiente privado (sim, o Orkut, embora virtual, é um ambiente privado – já volto a falar sobre isso). É como se entrassem no nosso quintal e dissessem: "não, vocês não podem usar bottons do candidato de vocês, nem balançar bandeiras etc".

Estas coisas costumam funcionar como dominó (se não pode isso, também não pode aquilo; se não pode aquilo, aquele outro também não etc.), como já estão funcionando: hoje à tarde foram apagados mais perfis de nossos amigos, incluindo um em homenagem ao Mário Covas, sem banner nem nada – que, me digam, o que tem a ver com o peixe da eleição deste ano?

Segundo o que estamos vendo acontecer, perfis que simplesmente tenham banner de candidato e/ou seu número estão sendo apagados. Então pergunto: e campanha contra, pode? Por exemplo, se eu quiser colocar um banner com "Eu não voto em corruPTos", ou quiser colocar "Fora Marta" ou "Fora Gleisi", aí pode? E se eu colocar "Geraldo Alckmin Prefeito" ou "Beto Richa Prefeito" no meu sobrenome, aí pode? E se eu pedir votos para as pessoas nas comunidades, mesmo sem ter nada no perfil, pode? E pedir votos para meus amigos (não desconhecidos, o que já caracterizaria spam) em seus livros de recados, pode? Como é que vão vigiar tudo isso? E qual é a diferença entre isso e usar um botton no peito e sentar na mesa de um bar e tentar convencer os amigos a votar no meu candidato? Ou vão querer vigiar isso também? E se eu copiar e colar (com a fonte) a notícia boa e/ou ruim sobre um candidato de um jornal, revista ou portal de emissora de TV num tópico? Ou copiar e colar o comentário do blog de um jornalista de opinião, favorável a um candidato, numa comunidade? Isso não é fazer campanha na internet também? Ou até o jornalista no blog dele vai ser censurado? Por que é que pode elogiar um candidato no blog dele e não pode copiar a opinião dele para cá ou espalhá-la no Orkut? Como diferenciar o que é fazer campanha do que não é? Ou só pode se manifestar "politicamente" (?) na internet quem é jornalista ou ainda não tem certeza de em quem vai votar?

Vou dar o exemplo do meu caso. Não estou oficialmente na campanha de qualquer político. Escrevo o que escrevo e falo o que falo POR CONTA PRÓPRIA, de forma INDIVIDUAL. Nem filiada sou. Não fui contratada, não recebo nada por isso e duvido que os partidos e políticos tenham a menor noção de que eu existo. Não tenho vínculo com nenhum partido ou político, exceto os estabelecidos pelas minhas convicções: sou movida POR ELAS E NADA MAIS. Portanto, já fiz minhas escolhas e tenho lado. E eu não posso manifestar isso no Orkut, usando um banner na minha foto, criando e gerenciando ou ao menos participando de uma comunidade para demonstrar minhas posições e debater os assuntos desta eleição? Não posso criar um perfil exclusivamente para isso, com o intuito de proteger minha intimidade e também meus amigos e familiares das ameaças que já recebi no meu primeiro perfil?

Controles como este que estão tentando impor, nem a própria ditadura militar conseguiu. Para banir de vez a campanha política no Orkut, seria necessário apagar todo o conteúdo da categoria "Política", já que a subjetividade de interpretação é vastíssima. Aí nós ficaríamos em outros fóruns do Orkut, debatendo as melhores maneiras de fazer uma bola de chiclete. Belo país estaremos construindo! E os blogs de opinião, então, terão que publicar desenhos animados e poesias. Quem tem mais de 40 anos sentiu arrepiar os pêlos da nuca, não é?

Antes de terminar este post, é preciso esclarecer uma coisa: o Orkut é um ambiente privado. Quem manda nele é o pessoal que gerencia o Google/Orkut. Nós estamos lá por comodato. Se, do dia para a noite, o próprio Orkut decidir que não quer mais debates políticos (ou religiosos ou sobre futebol, que são os três grupos que mais dor de cabeça dão para eles – e nenhum lucro) no seu espaço, estarão em pleno direito. Seria até compreensível, já que dá para entender perfeitamente que é pesado demais para o Google/Orkut, juridicamente falando, carregar como missão social a manutenção de assuntos tão polêmicos.

Mas, profissionais que são, duvido que os responsáveis pelo Google/Orkut decidissem tal coisa sem um aviso prévio razoável, como se fossem a Rainha de Copas de Alice no País das Maravilhas gritando "cortem-lhe a cabeça!". Ainda assim, não caberia chamar esta situação de censura, e nós não poderíamos impor nossas expressões políticas por lá, cabendo-nos apenas lamentar, fazer back-ups e procurar outro espaço.

Acontece que esta imposição vem de fora. E seria feita mesmo que estivéssemos em outro site de relacionamentos. É claro que o Orkut incomoda mais porque é mais freqüentado, mas, tão logo outro ambiente se tornasse vultoso, sofreria as mesmas sanções.

Aliás, cumpre lembrar que a resolução do TSE diz respeito à toda a internet. Uma vez feita a "limpeza política" no Orkut, aposto que o próximo alvo serão os blogs e qualquer outro tipo de site. E depois, o que mais vão querer vigiar? Os e-mails? As conversas do msn?

Eu realmente não sei o que fundamenta esta resolução do TSE. Num país cuja maior mazela é o desinteresse político da sociedade e o afastamento dos cidadãos de bem dos assuntos públicos, a internet se tornou o lugar perfeito para estimular, seduzir e reaproximar as pessoas do tema, especialmente as mais jovens, dado seu caráter ao mesmo tempo democrático e meritocrático, que dá abrigo a todos sem discriminações de cor, classe, gênero, religião ou idade, fazendo sempre destacar aquilo que realmente tem melhor qualidade.

Estas características tornam a internet atrativa a pessoas de todo nível de qualificação, puxando os debates para cima, uns aprendendo com os outros. E o Orkut, vastamente utilizado pelos jovens, tornou-se um local de especial fertilidade para o assunto. Será que, como disse meu amigo Thiago (ver posts abaixo), temem o envolvimento do jovem ou de mais setores da sociedade com a política? Temem o debate? Céus, mas tudo do que mais precisamos é debate! Debate entre candidatos, debate entre ideologias político-parditárias, debate de idéias, enfim, coisas que, pela legislação atual, não podemos ver mais na TV ou ouvir no rádio, já que tudo virou panfletagem simplória.

Como é que o eleitor vai escolher direito, se está tudo amarrado? Se não é possível saber quem é melhor ou pior, já que plastificaram todos do mesmo tamanho, com este maldito isentismo que é parcial, pois quer que desiguais pareçam iguais?

Entendo que os únicos perfis ou textos que, sendo políticos ou não, devem ser cerceados em qualquer parte, não só no Orkut, são os que cometem ou fazem incitação ao crime (como venda de drogas, referências diretas a grupos armados e milícias etc.), pedofilia e propaganda nazista. Defendo veementemente a liberdade plena de expressão de opinião, sobretudo a política. Sobretudo num país que padece da falta de interesse da sociedade com o assunto. Sobretudo num país onde os maus avançam porque os bons silenciam.

Não silenciem. Não nos deixemos silenciar.

***

Por favor, aqueles que se importam com a democracia e a liberdade de expressão, tão duramente conquistada, por favor, comentem:

http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=808972&tit=Carta-aberta-aos-defensores-da-democracia-brasileira

Um comentário:

Dick disse...

Daniela, é bem interessante o que você escreveu:

"Entendo que os únicos perfis ou textos que, sendo políticos ou não, devem ser cerceados em qualquer parte, não só no Orkut, são os que cometem ou fazem incitação ao crime (como venda de drogas, referências diretas a grupos armados e milícias etc.), pedofilia e propaganda nazista. Defendo veementemente a liberdade plena de expressão de opinião, sobretudo a política."

Porém, o grande problema é que nazismo também é política. E comunismo é pior que nazismo. Como, então tolerar propaganda comunista?

A ditadura vermelha que está se instalando decorre também da livre manifestação socialista/comunista que engana os brasileiros ingênuos. Por isso está havendo a atual censura na internet.

O problema é complexo, e grave. O Brasil precisa dizer NÃO AO COMUNISMO, com todas as letras.

R. Hamer