quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Aécio Neves, 2010 e radicalismos

" O governador [Aécio] defendeu ainda a diminuição do radicalismo, que, segundo ele, tomou conta da política brasileira."
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u443066.shtml

Não posso deixar de comentar, já que estive ontem no meio da muvuca que a presença de Serra, Aécio e Beto Richa promoveram na Boca Maldita em Curitiba.

Não vejo radicalismo entre políticos ou partidos – a não ser os do PT, com seus discursinhos toscamente ideológicos e suas pregações contra as inventadas "herança maldita" e "elite branca/burguesa". Tampouco há radicalismo na imprensa (menos ainda) ou no eleitorado comum, que mal tem tempo de cuidar de seus interesses privados e prefere manter-se alheio ao noticiário político. O suposto radicalismo, então de nossa parte, estaria em blogs como o do Reinaldo Azevedo, na comunidade Fora Lula (alguns por lá são realmente radicais), em outros sites e comunidades oposicionistas. São, enfim, os “foralulistas”.

Se o Aécio não está falando para as paredes, digo, para os petistas e vemelhopatas em geral, entendo que há duas interpretações para o discurso de Aécio: ou ele está falando PARA NÓS, tentando amainar nossos ânimos, ou está falando para o eleitorado comum, num discurso que inventa a problemática (o radicalismo, inexistente para estas pessoas) para depois vender a sua solucionática (conciliação), já que esta população, politicamente distraída, se deixaria levar facilmente por este palavreado construtivo e tão galanteador quanto a imagem do governador.

Se estiver falando PARA NÓS, há no discurso de Aécio uma certa presunção. É fato que o lulo-petismo RACHOU o país entre os que acham este o melhor e entre os que acham este o pior governo que o Brasil já teve. São visões inconciliáveis a curto, médio e longo prazo, porque encontramos aí o choque não só de dois partidos, dois tipos de gestão ou modelos de função e uso do estado, mas, mais profundamente, o choque de duas visões de mundo. É tentador explicar as raízes deste choque através da dicotomia platônica-aristotélica, mas aí já seria dar corda demais para a minha prolixidade (e ninguém precisa me lembrar que esta dicotomia pode ser tomada como falsa; há interpretações e comparativos entre Platão e Aristóteles que atendem a todos os gostos).

O fato é que, ao apresentar-se como alternativa de coalizão, Aécio ganha votos (daqueles que não acompanham a política como nós), mas também ganha a rejeição dos dois lados, daqueles que odeiam e daqueles que amam o lulo-petismo. Enfim: acerta agregando massa votante; erra afastando do PSDB os que acompanham política por gosto, vocação ou paixão, que seriam os embriões de militância do PSDB. A massa votante que Aécio agregaria jamais vai deixar de cuidar de sua vida pessoal para tratar desprendidamente de afazeres partidários.

O governador Aécio ou qualquer outro político do PSDB (isso inclui FHC) acham mesmo que suas declarações influenciarão minimamente os foralulistas? Acham que vão conseguir acalmar os exaltados ânimos oposicionistas destas pessoas? Negativo: vão conseguir é AFASTÁ-LAS do PSDB.

Tudo bem, Aécio pode dizer que o PSDB nem precisa dessa gente radical mesmo… É verdade que a curto prazo o PSDB precisa é de votos, o que, com este discurso, o governador consegue. Sucede que os políticos estrategistas do PSDB estão pra lá de calvos de saber que sem militância o partido NÃO SOBREVIVE A MÉDIO E LONGO PRAZO. E Aécio está enterrando o PSDB com esta conversa, achando que pode “pedir moderação” – e aí está a presunção – aos foralulistas. Ao invés de acalmá-los, o governador os incendeia ainda mais, e desta vez também contra o próprio PSDB.

O que quero dizer com isso? Que não adianta, tucanos: o racha, a radicalização, JÁ EXISTE* (e um pouco por conseqüência da falta de uma oposição consistente, que se adiantasse às nossas preocupações), e nada do que os senhores disserem para amainar os ânimos vai apagar o incêndio. A depender do que digam, provavelmente estarão é transferindo o incêndio para dentro de seu próprio partido.

De tudo isso concluo que o PSDB precisa caminhar numa senda estreita: se se mexer muito para um lado (fazer oposição contundente), perde votos; se saracotear demais para outro lado (como em discursos anteriores do Aécio, que antevêem uma união entre PSDB e PT, nos moldes em que vemos hoje em Belo Horizonte), perde simpatizantes/militantes.

Então, como ganhar em 2010 sem enfraquecer o partido?

Neste ponto concordo com a opinião de FHC, publicada por Veja aqui:
http://veja.abril.com.br/270808/holofote.shtml
(2010 já chegou para a oposição)

Desde o começo de 2007 temos, entre amigos, debatido o assunto. Chegamos à mesma conclusão de FHC: Serra presidente com Aécio vice é a solução mais interessante para o PSDB, que garante votos sem minar o futuro do partido.

É evidente que, antes de mais nada, o PSDB precisa estar unido em 2010. Cerrando fileiras nos seus rincões eleitorais e outras regiões mais que seriam acrescidas com a simpatia do Aécio, o PSDB não precisará disputar os votos do bolsa-família (que parecem ser inamovíveis do lulismo) e poderá fazer uma campanha eleitoral sem precisar se mimetizar com o modelo lulo-petista. Serra sozinho já tem uma aceitação muito grande nas classes mais baixas, mesmo no nordeste, e conta com uma aceitação razoável entre os “foralulistas”. Aécio quebraria um pouco a imagem anti-Lula da candidatura do PSDB em 2010, o que pode ser, gostemos ou não, providencial se a popularidade de Lula se mantiver em patamares próximos ao de hoje.

É claro que consideramos os riscos de uma gestão nestas condições (tendo em vista o que acontece com Yeda Crusius). Mas isso está SÓ nas mãos deles, e Aécio sabe que o futuro dele mesmo depende de um bom mandato de Serra.

Exponho tudo isso para explicar por que não poderia deixar de ir ontem à Boca Maldita (tradicional reduto de debates políticos em Curitiba), onde Serra, Aécio e Beto Richa, acompanhados de outros grandes nomes da política nacional, tomaram um "cafezinho eleitoral básico". Entreguei nas mãos dos dois governadores o adesivo que um amigo mandou confeccionar, com os dizeres “SERRA+Aécio=10”. Muitas pessoas, incluindo o deputado Roberto Freire, que apóia a idéia, fizeram questão de ficar também com um adesivo.

Antes de terminar, quero reiterar minhas opiniões já registradas em vários lugares sobre Freire, com quem tive uma rápida mas franca e agradável conversa. Freire merece sim ser considerado como um político BEM DIFERENTE daqueles esquerdopatas que já nem deveriam existir mais. Além de tudo, faz sozinho mais oposição ao governo Lula que todo o quadro político do PSDB.



* Volto a dizer: o radicalismo existe apenas entre aqueles que acompanham e que gostam de política. Para 99,9% da população brasileira (bom, obviamente descontados os 25% que dependem do bolsa família, pois estes já têm lado e tenderão a defendê-lo de forma radical), é evidente que esta divisão "ideológica", que seja, é transparente. Penso que a radicalização das visões de mundo, ora travestida na guerra entre PT e PSDB, tende a engordar na medida em que as pessoas têm acesso a informação e a debates francos, pois lenta mas inevitavelmente as pessoas vão tomando suas posições. Daí por que lamento profundamente nosso modelo amarrado de campanha eleitoral (que inveja dos EUA!), sem debate franco, sem posicionamento aberto da imprensa, sem choque de idéias. Pior: o único espaço onde isso AINDA era possível, a internet, foi recentemente ceifado por uma ridícula resolução do TSE, sobre a qual já escrevi amplamente em posts anteriores.
Ao contrário do que me parece ser o senso comum, penso que o radicalismo só tenderá a amainar DEPOIS que passarmos por este processo de debates francos e claros. Mantê-los artificialmente suprimidos, como é o corrente, equivale a comprimir uma mola. Porque só debates francos e claros, com confronto de idéias, e não mitos e símbolos mortos ou vivos, podem conduzir a sociedade a um caminho do meio, num processo de longuíssimo prazo em que o fato das idéias permanecerem em extremos inconciliáveis deixe de ser perigoso e impeça o país de amadurecer e galgar avanços.

6 comentários:

Dick disse...

Este texto teu, aqui no teu blog, ficou ainda melhor e mais completo que aquele comentário que você colocou lá no Reinaldo. E você, além de escrever bem, é modesta ao dizer que eu exagero nos elogios. Pode continuar modesta [:P] que, mesmo assim, eu continuarei te parabenizando [:P]. Ganhou um fã. [:D]

Anônimo disse...

A esquerda segue exterminando tudo que nos é mais caro, sem encontrar quem se lhe oponha resistência. Honrar a memória do 11 de setembro, e seus heróis, é uma questão de sobrevivência da civilização sobre a barbárie. Aqui, sejamos nós a linha de frente da luta contra os corruPTos dos MST’s, FARC’s et caterva que, na violência e destruição, tentam consumir o que construímos com carinhoso zelo!

http://www.donodaverdade.blogspot.com/

Pluschkatt disse...

Texto excelente!
Você e uma observadora arguta.
Sobre Aécio, acredito que pelo desempenho dele nas ultimas eleições, ele encolheu e muito o capital dele dentro do PSDB.
Acredito que o melhor seria PSDB e DEM juntos em 2010, com Serra na cabeça e Agripino de vice. Esta sim seria uma chapa dos sonhos, um trator eleitoral que uniria todas as regiões do pais.
Abraços!

Holger Madsen disse...

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Aqui na terrinha, falaríamos assim: "Quê isso, menina! Cê escreveu bem demais!!"


Muito bom seu texto. Ampla visão e conhecimento.

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Apenas pra te dizer uma opinião particular, Aécio age desta maneira com o único objetivo de ganhar votos e apoios políticos. E o faz com competência e inteligência. A caminhada até 2010 é longa, e muita coisa política e econômica ainda vai acontecer...

A seguir a caminhada desta maneira, chegaremos em 2010 com apenas um político capaz de "corrigir os erros cometidos por Lula mantendo o que ele fez de bom": Aécio. Esse é o objetivo dele. E você deu o tom certo quando pintou esse quadro do Aécio - nem "situação" demais que afaste ele de seus princípios partidários, nem "oposição" demais que o distancie de seu projeto político.

;)

CArlos astolfo disse...

parabéns pela analise!!
É uma pena que não possamos aproveitar o espírito conciliador de minas ´para contribuir para o Brasil, Aécio encarna o que mais representa minas neste momento. É o unico pós lula autentico, O choque de gestão é o contraponto ao aparelhamento de estado que o PT Criou, pense nisso e contribua para que possamos ter um Brasil diferente, Serra tb contribuirá com um novo mandato em SP.

Anônimo disse...

O que importa é que o Aécio tem resultados para apresentar, não é à tôa que ele possui um alto índice de aprovação. Ele consegue apoio e voto não pq se apresenta como alternativa de coalizão e sim pq ele fez muito por MG e os números provam isto. Olha o que ele falou sobre os resultados na segurança pública que é um dos temas mais preocupantes atualmente:http://www.youtube.com/watch?v=HyZ7Ol1CPhY