domingo, 15 de junho de 2008

Desabafo

À página 347 do livro "A Arte da Política" de Fernando Henrique Cardoso, leio o que segue:

"Dia 18 de janeiro (…) o Congresso votou lei elevando de 70 para 100 reais o salário mínimo - um reajuste de 42,8%. O aumento equivalia a romper o equilíbrio de um Orçamento já ampliado nos gastos pelo aumento de vencimentos do funcionalismo concedido pelo governo anterior. Como votar contra uma medida que, na percepção de senso comum, diminuiria as desigualdades e combateria a pobreza? De minha parte, vetei a lei com a convicção de que salário aumentado antes da hora, à custa de déficit, gera inflação que o corrói. Não poderia ser outra a atitude de um governante que se lançara, com o Plano Real, à busca da estabilidade. Como sempre, no entanto - e esta tem sido a permanente dor de cabeça e de consciência de todos os presidentes -, o desgaste é inevitável. Paciência. Quando se tem convicções, agüentam-se as pedradas, embora sangrando. O veto reforçaria o ambiente de estabilidade que possibilitaria o aumento real dos salários, como de fato ocorreu. O aumento real do salário mínimo acabou ficando entre 42% e 44% nos meus oito anos de governo, dependendo dos índices deflatores tomados em consideração, o que significa uma média anual de 4,7%. Como comparação, saliente-se que nos três primeiros anos do governo Lula obteve-se um aumento de apenas 11,18%, com média anual de 3,69%. "


Essa é uma frase para anotar, interiorizar e repetir o quanto seja necessário: Quando se tem convicções, agüentam-se as pedradas.

Quanto ao “desgaste inevitável”, de fato, para FHC foi assim. Ele transformou popularidade em avanços para o país; desgastou-se politicamente quando vetou aumentos, quando fez apertos fiscais e aplicou outros remédios amargos para a manutenção da estabilidade. Disse “não” quando tinha que ser “não”, em nome de um Brasil em 20 ou 30 anos – e este é o estadista. Já quanto ao Lula… este não abre mão de sua popularidade por nada, pois se esconde de todos os escândalos atrás dela, nem que para isso seja necessário fazer o país retroceder, vociferando contra a imprensa quando esta o critica, fazendo-a, de um jeito ou de outro, refém desta popularidade que é seu único trunfo. Não me espanta que Lula tenha e continue tendo a popularidade tão alta: ela está custando o atraso do país, porque não está sendo usada para fazer o Congresso avançar nas reformas, como a da Previdência, por exemplo. Ela não está sendo usada como arma para o bem do país, mas como escudo de defesa e instrumento de manutenção no poder do presidente e de seu partido. Está sendo usada para, não ilegalmente, mas imoralmente, burlar o processo democrático e endossar o presidente e seu partido a “quebrar as fronteiras entre o certo e o errado”, para citar o deputado Gustavo Fruet.

É engraçado que FHC seja o “malvado” que não deu aumento ao funcionalismo, o que fez bem ao país, e Lula seja o “bonzinho” que abriu as burras e distribuiu cargos, aumentando a gastança pública, e ao mesmo tempo não seja “o responsável” pela atual pressão inflacionária (já vi petista dizendo que a culpa é do BC, e não do Lula!). Quando é que a elite, e a imprensa que faz parte dela, vai colocar tudo isso em pratos limpos, publica e notoriamente? Quando é que vai se cobrar o ônus de quem fez as coisas erradas e dar o bônus a quem agiu corretamente? Quando é que os agentes que têm a obrigação de esclarecer as coisas vão ter coragem de ir para o confronto de idéias, sem medo de pechas, sem “isentismo”, ou seja, sem precisar criticar FHC para poder criticar Lula, sem ter que elogiar Lula para poder elogiar FHC, sem essa imaginária “ponderação” que almeja “arrebanhar crédito com os petistas” ou conquistar o título de “imparcial”, quando justamente estão sendo parciais ao igualar desiguais?

Estou dando a impressão de que estou um pouco brava e impaciente? Estou mesmo. É que o Brasil do futuro cobrará o que nossa geração está silenciando.

De novo: Quando se tem convicções, agüentam-se as pedradas.

Onde estão os homens de convicção na sociedade e na imprensa deste país? Estão todos em baixo da mesa com medinho de serem “acusados” de “tucanos, parciais ou elitistas”? Até quando vão continuar fazendo contorcionismo para colocar no mesmo balaio um governo que marcou para sempre a modernização do país e outro que está sendo mais corrupto que o do Collor e mais incompetente que o do Sarney? Até quando vão continuar tratando Lula como inimputável, como se ele presidente não fosse?

Basta de “desenhar” FHC de joelhos e Lula num pedestal, para os desavisados pensarem que os dois são do mesmo tamanho. Basta, basta desta “imparcialidade” de araque!

3 comentários:

CAntonio disse...

Dani,


Se for possível, gostaria que você parasse um minuto e escutasse as minhas palmas.

Mas eu pergunto. Que Imprensa?

Eu a chamo de Noçimpren$$a Livre e Democrática.

Valeu! E mais uma vez os meus aplausos.


GrandAbraço,

Bernardo Zirpoli disse...

Verdade. Tive o maior orgulho do mundo de citar Fernando Henrique no meu TCC. Apesar de não ser sobre esse tema, achei uma homenagem necessária (falava sobre a união das políticas públicas à sociedade civil... não me recordo a página)

Vim parar aqui por conta de um comentário no blog do grande mestre, Reinaldo Azevedo. E gostei muito. São coisas assim que me fazem querer voltar a falar sobre política. Coisas como o seu blog e essa frase de Fernando Henrique.

Quem sabe eu volto um dia.

Parabéns e vida longa ao seu blog.

Anônimo disse...

Mais palmas para voce daniela insone.