terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Pérola da Veja

Eis uma matéria para ser lida e usada com muita freqüência. Por isso, deve estar sempre à mão. Carregue isso no seu pen drive, no seu mp3, no seu celular. Não perca este texto de vista.

http://veja.abril.com.br/291207/p_140.shtml


Retrospectiva 2007 Ideologia

"Pede para sair, esquerda embolorada"

Nas democracias, divisões ideológicas costumam manifestar-se com estridência nas campanhas eleitorais. Em tais ocasiões, excessos retóricos são perdoáveis, desde que não firam os valores e processos fundamentais para a manutenção do jogo acordado. Dois mil e sete foi uma exceção a essa regra tácita. Apesar de os brasileiros não terem ido às urnas, o ano foi marcado por debates em que certo ideário se apresentou mais exacerbado do que o habitual – e em vários graus além do tolerável, já que seguidores seus tentaram, agora sem meias palavras, sobrepor seus equívocos políticos aos metros (morais e racionais) balizadores das sociedades que se pretendem civilizadas. De acordo com esse ideário – de matriz esquerdista –, a criminalidade se justifica porque é fruto da miséria, e a polícia, sempre corrupta, está a serviço da "burguesia exploradora". Como se não bastasse, os cidadãos ricos devem ser alvos de "vinganças sociais" e a ignorância popular é redentora.

Essas visões são de um despropósito ululante. Mas, ainda assim, elas encontram ressonância no Brasil, como a demonstrar a boutade de Roberto Campos, segundo a qual a burrice no país tem um passado glorioso e um futuro promissor. Diz o cientista político Denis Rosenfield: "O Brasil vive hoje sob o império do politicamente correto, que se traduz em chavões pescados do pensamento esquerdista do século XX. O primeiro desses chavões afirma que não existe problema penal, tudo é uma ‘questão social’. Isso não passa de um analfabetismo político sem tamanho, porque a esfera do social não equivale à esfera da criminalidade. Existem intersecções, não equivalência. O segundo chavão defende que autoridade é igual a autoritarismo. E o terceiro prega que todo signo de riqueza é sinônimo de exploração e precisa ser rechaçado. As pessoas condenam o lucro e a livre escolha do sujeito de fazer o que quiser com o dinheiro que ganhou com seu trabalho. Tudo isso é um grande absurdo. Desde o século XVII, não existe um cientista político sério que não diga que a função primeira do estado é proteger o cidadão física e juridicamente".


A inflamação ideológica contaminou, particularmente, as discussões em torno de três temas: o filme Tropa de Elite, do diretor José Padilha, o assalto sofrido pelo apresentador Luciano Huck, em São Paulo, e o livro A Cabeça do Brasileiro, escrito pelo sociólogo Alberto Carlos Almeida. É compreensível, embora não aceitável, que esses assuntos tenham despertado a belicosidade nas hostes da esquerda. Afinal de contas, para desespero dessa gente, cada um deles talvez represente, a sua maneira e proporção, o início de uma inflexão rumo àquela modernidade promulgadora do bem-estar e felicidade geral da nação. Que a possibilidade também se tenha oferecido sob os modos de um Capitão Nascimento, personagem de Wagner Moura em Tropa de Elite, é apenas um sinal trocado dos quais a ficção é pródiga em seus momentos reveladores.

Onze milhões de pessoas assistiram ao filme de José Padilha, no cinema e em cópias piratas. Para a maior parte dos espectadores, o efeito de Tropa de Elite foi, antes de mais nada, catártico. A ferocidade do Capitão Nascimento no trato com os bandidos vingou-os, na tela, do terrorismo que os criminosos lhes impingem no cotidiano. Os ideólogos aproveitaram-se dessa catarse para conferir ao filme de sucesso tonitruante uma moldura ao estilo dos programas "mundo cão" e, desse modo, esvaziar as suas verdades. Mas em que consistem, afinal de contas, os "pecados" de Tropa de Elite? Em mostrar que o caminho do crime é uma opção individual, que os consumidores de drogas da classe média são cúmplices dos traficantes e que, sim, existem policiais honestos – os quais, desamparados pelo estado corrupto e omisso, são obrigados não raro a descambar para a truculência até por razões de sobrevivência. Resume o sociólogo Demétrio Magnoli: "A tese – falsa e preconceituosa – de que a criminalidade é produto da pobreza é sustentada pela classe política de esquerda. Ela se recusa a discutir uma política de segurança pública para o país. Mas essa recusa é tão restrita a esse círculo político e tão pequena na sociedade que, quando surge um Capitão Nascimento – que faz a lei, mesmo fora da lei –, ele se torna um herói popular. O filme ajudou a levantar um aspecto muito importante: é preciso cobrar responsabilidade individual pelas opções de cada um – o criminoso não deve ser tratado como representante de uma classe sem escolhas".

A falácia de atribuir à pobreza o caos da segurança pública brasileira caiu como foice e martelo sobre a cabeça de Luciano Huck. Abordado no trânsito por um motociclista armado que lhe roubou o Rolex, o apresentador escreveu um artigo para o jornal Folha de S.Paulo, no qual relatava o ocorrido e expressava a sua indignação e perplexidade com a falta de segurança dos cidadãos de bem. Foi o que bastou para acender a ira dos ideólogos. Eles simplesmente revogaram o direito de Huck de reclamar. Um energúmeno chegou a escrever que o apresentador deveria sentir-se satisfeito, porque a troca fora justa: Huck havia saído com vida do assalto, e o "correria" com seu Rolex. "Os valores no Brasil se inverteram a tal ponto que as pessoas acham que alguém bem-sucedido como Luciano Huck tem de ser roubado e ficar calado, porque já teve privilégios demais na vida", diz o professor de ciência política David Fleischer, da Universidade de Brasília.

Há décadas, os ideólogos esquerdistas demonizam as "elites", das quais Huck é integrante. Culpam-nas pela pobreza, pelo subdesenvolvimento, pelo descaso. Isso até pode continuar a ser verdade em relação aos coronéis do Nordeste. Mas o Brasil, apesar de todos os percalços e mazelas, sofreu metamorfoses extraordinárias. Hoje, suas "elites", além de mais amplas, são mais bem educadas e, por isso mesmo, mais conscientes e desprovidas de preconceitos. Não se trata de impressão, mas do resultado de uma vasta pesquisa levada a cabo pelo sociólogo Alberto Carlos Almeida e condensada em A Cabeça do Brasileiro (Editora Record).

Ao confrontar iletrados e menos ou mais escolarizados com questões sobre política, economia e comportamento, Almeida constatou que a quantidade de anos de estudo é diretamente proporcional à formação de uma cabeça mais arejada. Como, no Brasil, mais educação associa-se necessariamente ao topo da pirâmide social, isso quer dizer que os mais ricos são mais modernos que os mais pobres. Ou seja, a ignorância da massa puxa o país para trás e o conhecimento das "elites" o impele para a frente, ao contrário do que apregoam as viúvas marxistas, com seu blablablá sobre a consciência originada da miséria e por aí vai. Previsivelmente, Almeida foi malhado, ironizado e vilipendiado. Por desespero de causa, é claro. O livro, somado a Tropa de Elite e ao desabafo de Luciano Huck, pode ser sinal, como já se disse, de uma inflexão, de que algo está mudando para melhor no Brasil. "O ano de 2007 foi aquele em que as ‘vacas sagradas’ da esquerda começaram a ser contestadas mais fortemente. Isso é uma novidade", diz Magnoli. Em outras palavras, a burrice talvez não tenha um futuro tão brilhante no país.

2 comentários:

Fred Martins disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fred Martins disse...

"Como, no Brasil, MAIS EDUCAÇÃO associa-se necessariamente ao topo da pirâmide social, isso quer dizer que os mais ricos são mais modernos que os mais pobres. Ou seja, a ignorância da massa puxa o país para trás e o conhecimento das "elites" o impele para a frente, ao contrário do que apregoam as viúvas marxistas, com seu blablablá sobre a consciência originada da miséria e por aí vai."

Li o livro e concordo em grande parte com ele. Neste trecho da reportagem vemos a necessidade de superar a mentalidade atrasada das classes menos favorecidas, e isso só pode ser feito pela educação, educação de qualidade. O onhecimento não deve ser privilégio das elites, classe média ou de quem quer que seja, deve ser um direito de todos. O Brasil precisa aprender que, como nação, ou se desenvolve todo mundo ou não se desenvolve ninguém. Todos precisam ter chances pra mostrar seu potencial, e o jogo capitalista que selecione no decorrer da vida quem teve mais méritos; mas com todos os indivíduos devidamente educados, a mentalidade muda, o nível cultural muda, a cobrança sobre os governantes muda. Precisamos disto.