quarta-feira, 31 de outubro de 2007

As quatro faces do PT

Para as classes menos favorecidas, o PT aparece como o protetor assistencialista e Lula é visto como um populista, o “pai dos pobres”, como um deles que ascendeu ao poder.

Para a classe média, o PT aparece como culturalmente liberal, como progressista, avançado, “moderno”. Para estes, o PT é o partido que carrega a bandeira da descriminalização das drogas, da legalização do aborto em mais amplas condições do que as que existem hoje, das políticas de redução de danos do uso de drogas, do relativismo cultural. É o partido da defesa romântica dos direitos das minorias oprimidas, sejam da mulher, dos negros, dos homossexuais, dos animais e da ecologia etc. Em relação às políticas de segurança pública, seu discurso propõe o ponto de vista onde o bandido é transformado em vítima social e a polícia em cerceador das liberdades do cidadão. A meritocracia capitalista é apontada como vilã maior, geradora de todos os males e desigualdades sociais, impondo assim um modelo “compensatório” como contraponto. Estas questões têm desdobramentos sobre os sistemas pedagógicos, com danosas conseqüências.
Esta visão chamada “progressista” é gerada dentro dos meios acadêmicos, formadores de opinião, e se expande para a classe média. Nela encontra um solo fértil nas “consciências pesadas” dos que pouco ou nada fazem como cidadãos, e por isso sentem-se aliviados ao militar por um partido que, na visão deles, defende e está penetrado pelo trabalho social, seja em ONG’s, em instituições religiosas (CNBB), MST, CUT etc.
Pela classe média, Lula é visto com uma certa aura de misticismo e messianismo, como aquele que carrega um saber puro, “in natura”, ainda não contaminado pelos modelos cartesianos do sistema.

Para os acadêmicos, o PT é o partido da revolução socialista e neo-comunista possível, à moda Chávez. Neste grupo estão os mais radicais opositores ao neoliberalismo. Eles estão vocalizados no vídeo do 3º Congresso do PT (conforme http://www.youtube.com/watch?v=VNPjm0qfByc ). São os que impingem sobre a imprensa o rótulo de golpista, arquitetando formas de controlá-la e de criar uma TV Estatal. São, enfim, os neo-bolcheviques.
Para os acadêmicos, Lula é um “fardo” a ser suportado, não sendo reconhecido como o “revolucionário comunista” que eles ambicionam. Ele é tolerado por ser instrumento de implantação desta nova forma de comunismo, pois é responsável por manter o PT no poder, através da sua ampla aceitação entre as classes menos favorecidas.
Este grupo não representa grandes somas em votos, mas molda o pensamento da classe média, que até bem pouco tempo, formava a opinião das classes mais baixas. Recentemente, parte da classe média descolou-se de Lula e do PT, e por isso está sendo estrategicamente demonizada.

Para as classes dominantes, ou elites financeiras (grandes empresários e investidores nacionais e internacionais), o PT é mais um partido submisso aos seus interesses. Em 2002 esta classe viu-se um tanto assustada com a iminente vitória de Lula, o que resultou na agitação do mercado antes da eleição, tumultuando o último ano do segundo governo de FHC. Entretanto, quando assumiu o poder, Lula manteve o modelo econômico anterior (através do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles), chegando inclusive a recrudescê-lo, para dar provas ao mercado de que as propostas do petismo acadêmico pouco ou em nada influenciariam na condução das políticas econômicas. Para estas classes, nenhuma importância tem a linha ideológica do partido no poder: importa apenas que este lhe seja servil. E isso o governo Lula tem sido.

Para minimizar o choque entre a visão dos acadêmicos e a das classes financeiras dominantes, o PT e o jogo político encenado por Lula chegaram a um meio termo que poderia ser chamado de “capitalismo de estado”, que inclui o total aparelhamento político (tomada) do estado pela “nova classe social”, reconhecida como “representantes autênticos e defensores dos direitos do povo”. Ainda assim, os acadêmicos criticam a ação pouco “libertadora” do partido quando assumiu o poder e creditam a esta heterodoxia os desvios éticos e morais, como o caso mensalão. Alguns já migraram de posição partidária (PSol, PSB), mas num caso de escolha bilateral - um segundo turno com o PSDB, por exemplo - a opção preferencial permanece sendo o PT, reconhecendo-o como alternativa possível ao neoliberalismo e àquilo que eles atribuem ser a direita.

Como pode um mesmo partido manter quatro caras tão distintas para públicos diferentes por tanto tempo?
Será possível que as outras três faces do PT nunca sejam reveladas a cada um dos grupos?
Por quanto tempo a mentira perdurará?

Mais importante: quais instrumentos, estratégias e suportes usar para mostrar para as classes menos favorecidas a face que o PT oferece para a classe média; mostrar para a classe média e para as classes dominantes a face que o PT oferece aos acadêmicos e; mostrar para os acadêmicos a face que o partido oferece às classes dominantes?

3 comentários:

Anônimo disse...

Daniela

Os acadêmicos sabem tudo isso. Na verdade, eles produziram isso. Quanto às "classes dominantes", se você está falando de empresários brasileiros, são uns caipiras. Se você esta falando das grandes multinacionais e maiores banqueiros, parte deles tem acordo com os comunas. Leia sobre as grandes fundações americanas.

tunico disse...

Daniela, é difícil dizer mas para as classes menos favorecidas, seria mais educação.Assim eles teriam mais acesso à informação.O problema é uma educação isenta que permita o acesso à informação qualificada. Para a clase média, entendo que a classe média que vota no PT é composta na maioria de pessoas que vivem de benesses do Estado como funcionários públicos e sindicalistas por exemplo e adolescentes e jovens mais sensíveis à propaganda petista.Para estes fica difícil mostrar outras faces petistas.Acadêmico de esquerda sempre será assim.Não quer ouvir nem enxergar outras faces pois na condição de acadêmico, vive um mundo à parte, fora do real.Os financistas e grandes empresários só ouvem uma voz. A do mercado. Não importa quem esteja no poder, desde que mantenham seus negócios sempre lucrativos.Acho que a pergunta crucial poderia ser: Quem são os quase 40 milhões de brasileiros que votaram contra o PT em 2006? Se conseguirmos identificar o perfil deste tipo de eleitor e em que estrato social se insere, poderíamos identificar ferramentas para mostrar a verdadeira face do PT e de Lula ao povo.

Anônimo disse...

Tunico

Quem votou contra o pt é um sem partido. Vota no DEM ou até mesmo no PSDB, por pura falta de opção. Precisamos criar um partido.