quinta-feira, 21 de junho de 2007

Dicionário

Renan Calheiros, no olho do furacão: "a palavra renúncia não existe no meu dicionário" (http://oglobo.globo.com/pais/mat/2007/06/20/296436467.asp)

E a palavra cassação existe, Senador?

Para fundamentar o que eu disse em "Quem é o vanguardista aqui?"

O jeans da intelectualidade

Nelson Ascher
Folha de S. PauloSegunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Categorias como ‘esquerda’ e ‘direita’ seriam usadas num mundo ideal somente enquanto ajudassem a identificar e distinguir maneiras concretas de pensar e agir. Em nosso universo imperfeito, porém, elas desempenham outras funções, como a terapêutica ou tranqüilizante (há pessoas que se sentiriam órfãs sem a garantia de que estão do lado ‘certo’) e a de lançar anátemas (elas precisam caracterizar facilmente quem se encontra do lado ‘errado’).
Vale dizer: ambos os termos têm menos a ver com sua acepção tradicional do que com a necessidade de simplificar um quadro complexo, tornando-o digerível para gente que tem mais o que fazer do que raciocinar por conta própria. Se, antes, lançar mão deles sinalizava o começo do debate, evocá-los corresponde agora a seu encerramento. Tendo em vista que a maioria dos ‘direitistas’ foi assim rotulada pelos que se consideram esquerdistas (pois a direita passou a ser toda a não-esquerda), a compreensão do binômio pressupõe entender como estes se definem.
Surge aqui um labirinto de espelhos no qual não é difícil se perder porque, cada vez mais, a esquerda se atribui, em qualquer situação, um papel de oposição perpétua e se define menos por aquilo a que aspira do que pelo que declara combater. Caso se pergunte a um partidário dela quais são suas causas, ele arrolará expressões prefixadas pelo ‘anti’: antiamericanismo, antiimperialismo, anti-sionismo, anti-racismo, anticapitalismo etc. Em resumo, malgrado a esquerda atual prescindir de uma teologia e mesmo de uma teleologia, seu âmago se compõe de uma demonologia. E o vínculo mais importante que mantém com a antecessora clássica consiste na divisão da espécie inteira em dois campos: o do bem e o do mal, o dos mocinhos e o dos bandidos. Militantes raivosos, aliás, a converteram numa autêntica máquina de fabricar inimigos.
A esquerda clássica ainda ambicionava um mínimo de coerência, algo de que seus herdeiros não podem ser acusados, e muitas opiniões destes (a respeito de ciência e tecnologia, progresso material, paz e guerra, questões étnicas e religiosas) seriam classificadas como reacionárias duas ou três gerações atrás. Ser de esquerda se reduz hoje em dia a participar de uma massa amorfa que recorre a um amálgama mutável de opiniões desconexas para erguer um Muro de Berlim metafórico que se interponha entre ‘nós’ e ‘eles’.
Trata-se, portanto, não de adotar um programa político, enunciar metas desejáveis ou aplicar um método cognitivo à realidade, mas, sim, de ingressar numa ‘tribo’, seguir uma moda, sentir-se bem, não ficar sozinho. Seus membros ou simpatizantes, desejando participar de um grupo que lhes parece interessante, adotam as opiniões correntes de seus integrantes. O que distingue a esquerda de agremiações semelhantes (um partido político normal, uma torcida organizada, uma escola de samba, os punks, os GLS) é a crença arraigada de que ela e o resto (em última instância homogêneo) do planeta estão envolvidos num conflito nebuloso, mas nem por isso menos cósmico e apocalíptico. Incidentalmente, quanto havia de futurista, de ficção científica, na utopia da esquerda deu lugar, desde a contracultura dos anos 60, à nostalgia confusa e romântica de uma Idade de Ouro perdida.
Ao fim e ao cabo, contudo, se, para minorias empenhadas e organizadas, o esquerdismo serve de atalho rumo ao poder não democrático, ele, para o grosso dos seguidores e ‘companheiros de viagem’, desempenha sobretudo a função daquilo que Elias Canetti batizou de ‘cristais de massa’, permitindo a coalescência de agrupamentos que se autodefinem por tais ou quais afinidades, estilos de vida, comportamentos, preconceitos. Acatar-lhe os rótulos denota uma vontade de pertencer a seu círculo mágico de eleitos ou, se nada, equivale a levá-los demasiado a sério.
Em determinadas rodas sociais, faixas etárias e profissões, pertencer à esquerda (o que se traduz em papagaiar, sem discordância, as opiniões grupais) é obrigatório. Quase todos os professores universitários e seus alunos, jornalistas, atores de cinema e TV, diretores hollywoodianos, roqueiros que cantem em qualquer língua, astros pop em geral, nove entre dez poetas, dramaturgos, romancistas, roteiristas e assim por diante chegaram (ou aderiram) a consensos indiscutíveis sobre temas variados como a Guerra do Iraque, o aquecimento global, a educação das crianças, a justiça penal e a social, sobre quem é vilão e quem é herói no país e no mundo, sobre o consumo, a economia de mercado, a indústria farmacêutica...
Tal consenso é, no seio da intelectualidade ocidental, tão amplo geral e irrestrito que pode decorrer apenas de uma entre duas causas: ou Deus interveio pessoalmente e iluminou esse pessoal com sua verdade, ou estamos perante uma moda que, de tão enraizada e difundida, tornou-se uma segunda natureza, um reflexo incondicional. Não se sabe quão profundamente esta ‘pegou’ ou ‘pegará’ no restante (99%) não-intelectual da humanidade. Entre os membros das categorias acima, todavia, esse conjunto bastante improvável de opiniões recebidas é hegemônico.
Quando não estamos dispostos a escolher roupas nem queremos ter de tomar decisões similares, o que é que pegamos no armário? Qual traje liberta melhor seu usuário das dúvidas e dilemas, exime-o da obrigação de optar e, ao mesmo tempo, lhe dá a sensação de naturalidade informal, descontraída? A resposta é: uma calça velha, azul e desbotada. Se a religião foi outrora apelidada de ‘o ópio do povo’, o esquerdismo se transformou hoje em dia no jeans da intelectualidade.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Abandonando de vez a esquerda

Vergonhosamente eu tenho que admitir que até a semana passada eu me dizia centro-esquerda, pautando-me em argumentos já publicados neste blog. Embora há muito tempo eu já esteja convencida da necessidade de um maior liberalismo econômico (o que me caracterizaria, no Brasil, como direita), eu ainda assim me alinhava com a esquerda moderna, como a chilena, por exemplo. É verdade que seria uma esquerda bem pertinho do centro, mas ainda esquerda. Durante o último feriado, entretanto, revi minhas idéias e restou-me definitivamente migrar para a posição centro-direita, já que acredito que o "centro" absoluto é uma posição hipotética: ou se é centro-esquerda, ou centro-direita.

Eu mantinha uma ilusão, uma crença, na existência de uma esquerda ponderada, ética, democrática. Mas isso caiu por terra quando pude ver de perto, por dentro, o método de ação daqueles que eu considerava postulantes dessa esquerda amornada, quando pude ver que, no cerne, ela não se distingüe em nada daquela esquerdopatia que eu tanto abomino. Infelizmente, toda a esquerda, da que se alardeia ponderada à mais radical e comunista, é movida pelas mesmas estruturas psicológicas de ódio e principalmente de inveja. Está realmente no DNA. Agem por ambição desmedida e se preciso for, como leninistas em busca de poder, destroem os que estão ao seu lado na luta. Não toleram a democracia, não toleram a opinião discordante, não aceitam ser contrariados. Quando sofrem represálias, agem como crianças, jogando-se no chão e se fazendo de vítima, nunca assumindo nada do que fizeram. Além de tudo, a esquerda, qualquer esquerda, não é ética. Isso pode parecer duro a alguns. Mas é verdade porque a máxima da esquerda é "o fim justificam os meios". Então, a esquerda usa quaisquer meios: se passam por outros, mentem, burlam eleições (mesmo as mais infantis), chantageiam, se fazem de bonzinhos. Tudo é permitido, desde que a trajetória em busca do poder não seja interrompida.

Não. Eu não compactuo com nada disso. Se essa esquerda ponderada que acreditei existir é também assim, então, definitivamente, não sou mais de esquerda.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Quem é o vanguardista aqui?

http://www.estadao.com.br/educacao/noticias/2007/jun/09/115.htm

Agora que já está evidente que partidos de extrema-esquerda controlam ocupação da reitoria, uma vaia bem grande para os Remelentos e as Mafaldinhas:

Alienados-alienados-alienados!
Manipulados-manipulados-manipulados!

Mas que belo mico, heim?, para quem queria fazer pose de arrojado, moderninho, politicamente ativo e engajado...
Filhinhos, vocês estão out. Atrasadinhos. Passados. Obsoletos. Cabecinha vazia. Acéfalos. Maria-vai-com-as-outras.
Vanguardista, cult, estar na contra-mão, ser "contraponto", in, cool, no Brasil, é ser de direita. Daquelas BEM economicamente liberais. Por que? Porque para ser de direita não serve qualquer um. Tem que ler, que argumentar, tem que saber escrever, se explicar, ter fundamento, base. Não ser submisso ao pensamento corrente. E tem que ter coragem. Os direitistas é que são Revolucionários. Vocês são só massa de manobra.