segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

"Quando o Brasil me tira o sono" não é só o título deste blog

Alguns amigos e conhecidos me olham com cara de quem viu alienígena toda vez que falo em política. Ainda mais agora, depois que o calor das eleições já se amornou.

Esquecem-se de que o debate político é indispensável para a compreensão de toda a vida em sociedade e, diferentemente do que ocorre com religião ou futebol, não só podemos, mas também devemos, discutir política. Num Estado laico, escolhas religiosas dizem respeito apenas ao nosso destino individual. E futebol absolutamente não altera em nada os destinos de ninguém, exceto daqueles que atuam efetivamente nele. Já a política diz respeito ao nosso destino coletivo. Então, é assunto do qual todo cidadão não se deve furtar, sobretudo em países como o nosso, em que uma barbárie nova entra nos nossos lares semanalmente.

Depois da eleição, como alguns, também tive crises de desânimo profundo e depressão. Constantemente passo por momentos de grande angústia tentando encontrar uma saída - que eu não encontro, por mais desesperadamente que eu tente (o que me torna uma verdadeira brasileira insone). Sucede que os maus políticos avançam porque os bons políticos recuam. E recuam porque não têm apoio, não sentem respaldo da população. E estão certos. Vão ser sacrificados por quem? pelo que? vale a pena? Se não tiverem reconhecimento, não vale. Como posso ser eu mais uma a jogar a toalha? A não me esforçar para fazer com que os bons políticos sejam apartados dos maus?

Ainda que eu também desistisse, a questão maior é que as conseqüências sempre são pagas por nós mesmos, a cada nova nova barbárie. Quem de nós será o próximo? Será que só vamos nos importar de fato quando a vítima estiver próximo o suficente? Por ação ou por omissão, conscientes ou inconscientes, todos nós somos culpados. E nosso crime é não querer saber de política, é apontar como "taciturno", "chato" ou "careta" quem dê aos fatos uma interpretação mais profunda que os simplismos ofertados pela mídia. Nos satisfazemos com análises rasas que as novelas e programas dominicais de TV ofertam, ávidos por vendermos nossa consciência à cantiga já esgarçada que imputa o problema da criminalidade às diferenças sociais, ao coitadismo, à exclusão. Como se protestar e compadecer-se com a pobreza resolvesse alguma coisa. Como se a solidariedade com a mãe que perdeu o filho impedisse que outras mães perdessem seus filhos de forma trágica.

Caridade não resolve. Vela não resolve. Flores não resolvem. Luto não resolve. Homenagens, passeatas, faixas, entrevistas e choro na TV não resolvem. Sinto muito, mas orações e missas também não.

Que temos que resolver os problemas sociais, isso temos mesmo. Ninguém está aqui pra discordar. A questão é que, por causa da superficialidade e passionalidade com que se analisa este e outros temas, optamos pelo método errado. E o resultado são os direitos humanos que servem apenas para defender os humanos que não são direitos; o resultado é que pagamos o preço da igualdade social com a conta das liberdades individuais; o resultado é uma justiça social artificial, forçada; o resultado é assistencialismo que acomoda; o resultado é a pobreza multiplicada; é a miséria que nos encerra a cada dia dentro de mais cadeados. Não, o Brasil não avançou na solução de seus problemas sociais: andamos para trás. Tomamos o caminho errado. E o exemplo da impunidade vem de cima, para seduzir os excluídos. Não há a menor presperctiva de, em quatro anos, reverter este caminho. Esperem por coisas ainda piores.

Quem paga a conta somos nós mesmos, não adianta se esconder. E se preciso for, ela vem a ser cobrada dentro da nossa própria casa, cedo ou tarde. Não posso simplesmente deixar esse assunto para lá e ser feliz. Não dá mesmo pra ser feliz. Não dá pra colocar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos inocentes.

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